Paulinho e Bolota: mais que dono e seu cão, os 2 deram a volta por cima
Cachorro de Paulinho quase foi sacrificado quando era bebê. Jogador tem histórias de reviravoltas na carreira. Um dos titulares do Tite é o Paulinho, personagem desta quinta (31) na série com os jogadores que vão representar o Brasil da Copa da Rússia. saiba mais Reveja os perfis dos craques do Brasil na Copa da Rússia Não late em chinês. Mas é nascido e criado em Guangzhou. Entende português. Bolota é um chinesinho musicalmente educado pelo pandeiro. E quando o Bolota acha que já está bom de samba. É, imediatamente Bolota volta atrás e o samba continua. Pergunte a Paulinho como foram os dias pós sete a um. "Não tem como ficar bem. Eu falei: ainda vou ficar assim por algum tempo", lembra o jogador. Lembre a ele os tempos de pobreza e incerteza. "Disputar uma quarta divisão, eu enfrentei", conta Paulinho. Nada o fará chorar e se emocionar desse jeito. As lágrimas são por alguém muito querido: "foi difícil. Passamos uma. Um pouquinho de trabalho". O ser em questão começa com "B": "um cachorrinho que a gente fala que é especial". Bolota. "A gente pensava que ele não ia resistir", lembra o jogador. Dois dias depois de chegar, bem pequeno, à casa de Paulinho e Vivian, Bolota parou de comer, ficou doente. E, quando correram ao veterinário que tinha vendido o cão a eles, ouviram a proposta: a gente troca, te dá outro filhote e sacrifica esse. "É, mãe, eles queriam matar o Bolota e me dava outro. Olha, foi uma confusão", lembra a mãe de Paulinho, Érica. Cuidaram dele, hoje um Bolota de saúde perfeita. "Ele deu a volta por cima e hoje está aí, aprontando", conta o jogador. Ah, se o Bolota soubesse quantas voltas por cima o Paulinho também deu na vida. "Vou contar essa história. A gente ouvia um, ouvia outro falar dele e tal. E não é possível que esse menino joga bola. Ah, eu acho que não joga não", conta a mãe do craque. Um dia, a irmã chegou com o recado: "olha, veio um treinador aqui atrás do índio, do indinho". Indinho mesmo. "Tanto da minha parte, quanto da parte do pai dele, biológico, tinha índio", diz a mãe. A Portuguesa de Desportos aprovou o indinho no futsal. Será que, a essa altura, a mãe ainda duvida? "Parece que ele leva jeito", brinca Érica. Foi para o PAEC, da quarta divisão paulista. "A gente ouvia os pais falar: pô, quem leva esse time é o 8. É o camisa 8. Aí nós fomos olhar quem era o camisa 8. Mas nunca falei para o Paulinho que ele jogava bem. E até hoje eu não falo. Sempre falta alguma coisinha", relata a mãe. Nem quando ele foi para Lituânia aos 17 anos, depois Polônia. Dois anos fora e, na visão dele, jogados fora. O paulistano Paulinho voltou para casa sem dinheiro, nem sucesso. "Nessa volta eu pensei em parar", lembra Paulinho. Mas, como sempre com ele. "Tudo tão de repente", diz a mãe. Foi para o Bragantino, se destacou e foi jogar no time do coração da família. "Eu falava assim: meu deus, eu não acredito que essa criatura está no nosso Corinthians", conta a mãe. Campeão de tudo. De título paulista a mundial de clubes. Campeão da Copa das Confederações pela seleção e aí... foi para o Tottenham na Inglaterra e não foi feliz. Optou pela China para ganhar bem, mas sabendo que estaria mais longe de chegar a outra Copa do Mundo. Paulinho: "Eu sabia que eu ia me distanciar da seleção brasileira". Érica: "Mas, como tudo é de repente na vida dele". Tite, o velho parceiro de conquistas no Corinthians, assumiu a seleção. "Falei assim, acho que meu trabalho não acabou", lembra o jogador. Foi um dos jogadores mais importantes na arrancada histórica da seleção nas eliminatórias. Érica: "Estou assistindo aqui, tão falando que você vai para o Barcelona. Como é que é essa história aí?". Havia a lembrança ruim da temporada europeia no Tottenham, também antes de uma Copa do Mundo, como agora. Havia o risco de ficar na reserva em um time de estrelas como o do Barcelona. Era visto com desconfiança pela imprensa espanhola. Mas decidiu apostar. Ao volante, a caminho do estádio do Barcelona, o Marcos, padrasto superpai que o criou desde os três meses de idade. Com o Marcos na arquibancada, Dona Érica. Torcedores barcelonistas. Testemunhas de um sucesso que surpreendeu boa parte dos críticos. "Meu filho, jogando no Barcelona? Fez gol. Meu deus, aí não aguentei. Não aguentei a emoção, comecei a chorar, chorar. Mas eu chorei, chorei", lembra Érica. Tudo bem de repente, como sempre. "As coisas da vida passam muito rápidas", conta o jogador. Em São Paulo, na casa de Marcos e Érica, há um canto sagrado para eles. Marcos: "Aquele quarto é nosso prazer. É o nosso tesouro". Érica: "Ali naquele quarto tem a história dele". Começa bebê e passa por todos os oito clubes da carreira. No quarto, com as fotos, uma ampulheta. A areia descendo. Érica: "Um símbolo assim de que o tempo se encarregou de tudo". Felizmente, na carreira do Paulinho, a areia fina continua a cair. Ainda há tempo para reescrever uma história e arrumar um lugar na parede do quarto. Uma nova chance em uma Copa do Mundo. Para fazer que nem ensinou ao Bolota. Para dar a volta por cima.
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